Meditação

Meditação Budista

Uma explicação acerca do que é a meditação, e em particular a meditação Budista, deve começar por trazer alguma luz acerca do que é o Budismo. Qualquer prática que se perfile como Budista terá que estar em sintonia com a visão do Budadharma, que neste contexto significa os ensinamentos do Buda. É nessa moldura contextual que a prática da meditação contém o potencial de levar a uma determinada conduta e posterior fruição.
Esse é, aliás, uma dos grandes marcos filosóficos Budistas conhecido como lei natural de causa-efeito. Ela diz-nos que sem causas não podem existir efeitos, e esta lei é tão universal que qualquer agricultor poderá atestar que sem semear não pode haver colheita. Da mesma forma sem semear as causas dos objetivos que ambicionamos, não os podemos experimentar.

O Budismo não parte de uma posição teísta do universo, nem é baseado numa posição metafisica ou doutrinaria. Ele parte de uma experiência comum a todos os seres que é a experiência do sofrimento. A premissa Budista diz que é através da reflexão e contemplação dessa experiência comum, que podemos ir além de todas as ilusões mentais que são a causa desse sofrimento (Sumedho, 2014). De forma sucinta podemos dizer que o Buda ensinou exclusivamente acerca do sofrimento, as suas causas, o seu fim, e o caminho que conduz à sua cessação.

A palavra Tibetana para Meditação é “Gom”. Esta palavra pode traduzir-se literalmente por “familiarizar-se”, ou “tornar-se familiar” com alguma coisa. Mas com quê? Tornar-se familiar com a verdadeira natureza dos nossos pensamentos, com a natureza da nossa mente, e finalmente com a natureza da própria realidade.

Realidade que é distorcida por causa de obstruções cognitivas e emocionais que nos separam da realidade tal como ela é. Como resultado dessa visão distorcida são criadas as condições para a criação de ilusões mentais a que chamamos “eu” e “o outros”, o “meu” e o “teu” que são a base para todo o tipo de conflitos.
O eu e o meu tem que ser protegido do outro e a partir deste conjunto de ilusões subtis, nascem as emoções negativas como o apego e a aversão. Os medos e expectativas que modelam as nossas ações. São estas ações baseadas em ignorância as principais causas do sofrimento e o motor que perpetua as nossas tendências reativas habituais mantendo em movimento um padrão conhecido no Budismo como o ciclo ou roda de samsara. É neste contexto que a meditação Budista se desenvolve, como uma ferramenta capaz de furar através dessas ilusões que obstruem a mente para a alinhar com a realidade tal como ela é devolvendo-nos a lucidez necessária para funcionarmos melhor no mundo.

Antes do Budismo ter nascido na Índia já existiam outras formas de meditação. Existem várias tradições contemplativas ao longo do mundo e da história que utilizaram e utilizam formas de meditação nos seus percursos espirituais. Inclusivamente aquela que nos é mais familiar, a tradição Cristã. Mas apesar disso é justo dizer que as articulações mais refinadas e desenvolvidas da meditação ao longo da história, assim como a forma de a cultivar vem da tradição Budista.

As grandes diferenças nas meditações desenvolvidas por essas tradições contemplativas partem da visão que lhes deu origem e do objetivo a atingir. Em muitas tradições teístas esse objetivo passa por uma ligação com o divino, ligação essa que está presente no próprio termo latino “religio” que significa ligação ou laço. Isto significa que o objetivo passa pela união com o divino.

Todas as religiões utilizam terminologia ligada à ideia de “libertação” ou “salvação” que pela sua natureza e contexto significam liberdade frente a uma condição. Neste sentido o Budismo não é exceção, uma vez que o seu objetivo como vimos é a liberdade total da mente frente às ilusões que são fruto de um tipo de ignorância fundamental.

No Budismo no entanto existe uma diferença fulcral que parte daquilo a que se chama as três características da existência “Anicca” “Dukka” e “Anatta”.

Sem entrar em pormenores acerca das duas primeiras, o último termo em Pali “Anatta” significa “não eu”, e implica a negação de uma entidade chamada “eu” existente por si e independente. Este princípio contradiz a doutrina de “attman” Hindu enquanto o mais elevado princípio humano, a Essência divina, sem forma e indivisível.

Neste ponto reside uma das diferenças fundamentais entre o Budismo e o Hinduísmo assim como de outras religiões teístas. Dessa divisão aparece consequentemente a diferença nos objetivos da meditação de cada sistema.

No caminho Hindu procura-se a união desta alma individual com a alma absoluta ou a consciência universal. No percurso Budista o foco está em desfazer a ilusão de um ser inerente e independente por si através da observação direta dos cinco agregados internos (forma, sensações, cognição, volições mentais e consciência), ou externos (todos os fenómenos compostos) com o objetivo de desalojar gradualmente a ilusão acerca da natureza da realidade que é causa do apego a todas as cristalizações que são produzidas na mente – O eu, o meu e todas as suas variações.

Existem muitos modelos diferentes de meditação dentro da tradição Budista, que vão desde a meditação na compaixão, até à meditação nos cinco agregados, passando pela atenção plena, sadhanas etc. Cada um deles procura atingir o mesmo objetivo partindo de lugares diferentes. Estes métodos são como modos hábeis que se adequam a diferentes géneros de pessoas e personalidades. Um exemplo seria como ter a mesma casa construida por alguém que aprecia cozinhar ou por outra pessoa que gosta de ver filmes e séries numa grande televisão de ecrã plano. Cada um deles irá dedicar-se de formas diferentes à sala ou à cozinha dependendo das suas particularidades.

Tendo em conta a sua finalidade, o Budismo introduziu no seu sistema meditativo um ingrediente que lhe é único em relação a todos os outros modelos de meditação. Um ingrediente que não existia até então, e que foi acrescentado de modo a satisfazer o objetivo de clareza cognitiva. Foi nesse contexto que nasceu o Vipassana.

Ao passo que o Shamata (atenção ou mindfulness) é comum a várias tradições, (focadas em objetivos diferentes), o vipassana é exclusivamente Budista. Ele depende de uma mente estável e tranquila que é o resultado de um estilo de vida e treino específicos, para poder penetrar a natureza da realidade. Um exemplo seria o da realização experimental de que todos os fenómenos compostos são destituídos de existência inerente e como tal impermanentes, insatisfatórios e não confiáveis por natureza. Estes pequenos vislumbres permitem afrouxar o poder que a ilusão tem sobre o modo iludido de ver o mundo permitindo uma ação menos reativa e livre face às circunstâncias.as obstruções.

Mais informação sobre meditação em:

Mosteiro Budista Sumedhārāma
Centro de estudos Tibetanos

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