A energia no contexto terapêutico

A energia é um daqueles conceitos mais ouvidos, maltratados e usados para explicar princípios de acção terapêutica e diagnóstico, dentro do leque de disciplinas e pseudo-ciências que compõe a vasta dimensão das medicinas alternativas. (Ver aqui a diferença entre medicinas alternativas e Terapêuticas não convencionais).

No contexto terapêutico o conceito de energia passou a fazer parte do vocabulário obrigatório de qualquer paciente ou terapeuta do ramo das medicinas alternativas, sendo usada quase como uma espécie de panaceia para todos os males, promessa para todas as curas, e explicação de tudo e de nada na decoração central de uma montra de maus produtos.

Isto acontece por três ordens de razão:

A primeira tem a ver com a inexistência de formação padronizada em virtude de um distanciamento com o contexto e objetivos originais destas práticas terapêuticas. Na esmagadora maioria o seu estudo e desenvolvimento estiveram tradicionalmente ligados às diversas tradições contemplativas do mundo apostadas num caminho e prática espirituais.

A segunda tem a ver com a oferta. Na falta de uma compreensão adequada, qualquer pessoa fabrica a sua explicação, escreve um livro ou se torna mestre de alguma coisa em seminários e formações de fim de semana. É preciso fazer a diferença face a uma competição cada vez mais agressiva e nada melhor que usar um conceito vago e uma ideia fácil para explicar um conhecimento e experiência que não se tem.

A terceira razão tem a ver com a procura. Não havendo informação adequada e uma oferta pouco ética, o elo mais fraco acaba sempre por ser quem procura ajuda a partir de uma posição fragilizada. Sobretudo quando o anzol é hábil e joga com o ego. Ninguém quer ser a carta fora do baralho, ou o ser vulgar que não consegue ver as roupas do rei em tecido invisível que só os inteligentes conseguem ver.

A energia há muito que passou a ser uma metáfora da história do Rei vai nu, e o objetivo deste texto é tentar desmistificar um pouco o conceito.

Para ajudar nessa tarefa, quero partilhar uma ferramenta que me foi passada por um professor de Dharma e que me tem ajudado a separar o trigo do joio, sempre que me é apresentada uma ideia que envolve normalmente um conceito fácil de se gostar, mas difícil de se comprovar. A ferramenta implica a seguinte análise:

– Pode este conceito, esta ideia, esta teoria ser aplicada na minha vida de forma prática e torna-la melhor? Se não puder por muito bem que fique na montra, não tem grande valor prático.

O que é a energia?

No exterior assume muitas formas conhecidas e mensuráveis. Solar, Térmica, Eólica, cinética, elétrica, nuclear, elástica, etc. Independentemente da fonte e forma como é obtida, na física, a energia é a propriedade que deve ser transferida para um objeto para realizar um trabalho ou para aquece-lo. A unidade de energia é o joule, que é a energia transferida para um objeto pelo trabalho de movê-lo a uma distância de 1 metro contra uma força de 1 newton. Ela não serve para mais nada do que a derivação de aplicações práticas que ecoam do mesmo princípio fundamental que é o de realizar um trabalho.

 

No corpo a energia é o ATP. A molécula de Trifosfato de adenosina. A minha bioquímica está um pouco ferrugenta, mas em síntese a malta come, e no processo de digestão os nutrientes são decompostos nos seus elementos básicos.

 

A glucose e oxigénio são absorvidos num processo conhecido como respiração celular onde a glicose é quebrada na mitocôndria da célula. É formado um nucleotideo ligado a três fosfatos em cadeia sendo que a energia está nas suas ligações químicas, e obtida grosso modo no processo da sua quebra. Para que é usada? Para tudo e sempre que existe a necessidade de executar um trabalho, seja ele estudar, pensar, rachar lenha, contrair um músculo ou digerir o almoço. Tudo.

 

Não parece muito esotérico ou misterioso mas se pensarmos bem são processos que ocorrem dentro de nós, dos quais não estamos sequer conscientes ou temos um papel activo e que no entanto sustentam o que chamamos de vida.

 

E nas terapias não convencionais o que é a energia?

 

A pergunta torna-se relevante porque à partida tudo está coberto pelos conceitos de dentro e fora, e sendo que acabamos de definir o que é aceite cientificamente como energia no exterior e interior do corpo, onde é que se encaixam termos como meridianos, campo bio-energético, bio-energia, aura, vibração, energia curativa, etc?

 

É preciso entender que muitos destes termos são terminologias sinónimas entre si de ATP, ou de traços do seu rasto nas suas diversas manifestações, calor, movimento, electricidade, etc.

 

É sabido que o corpo humano é composto de 64% de uma solução salina chamada na medicina de soro fisiológico que é um bom condutor de electricidade. A solução salina é chamada na electrotécnica “solução electrolítica” que em contacto com as células nervosas, gera bioelectricidade química.

 

A cada batida do nosso coração produz-se uma corrente de um ciclo por segundo de um watt de potência elétrica dissipada. Deste modo podemos dizer que o corpo humano é uma máquina elétrica.

 

A manifestação dessa bio eletricidade é mensurável por exemplo num eletrocardiograma e é possível captar a sua imagem com aparelhos de medição específicos. Nesse sentido podemos dizer que temos uma aura, tal como uma lâmpada ou outro aparelho elétrico.

 

Outros termos são racionalizações inteligentes que aproveitam conceitos estudados, compreendidos, aceites universalmente e confiados como veículos onde se colam outros conceitos à boleia a fim de lhes conferir veracidade. Muitas das pseudo-ciências que brotam do movimento “New age” são inteligentes ao ponto de copiarem a natureza em associações de parasitismo onde a mentira se confunde com a verdade quando apresentada no mesmo cesto.

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