A influencia Budista na história das medicinas orientais

Desde a sua criação há mais de 2500 anos até aos dias de hoje o Budismo viajou do seu local da origem no Nepal para todos os cantos do mundo e influenciou vários aspetos das culturas por onde passou e se estabeleceu, incluindo a medicina.

Nesse processo também ele adotou as formas e cores das culturas onde se estabeleceu e é por isso que se apresenta em formatos externamente tão diferentes nas suas diferentes tradições na Tailândia, no Japão, China no Tibete onde diferentes escolas Budistas são conhecidas por diferentes nomes como Theravada, Mahayana, Chan, Zen ou Vajrayana.

Apesar dessas diferenças externas a sua essência permaneceu igual muito graças às linhagens de tradição oral ininterrupta desde a sua origem até ao presente. Nessa essência os seus seguidores encontraram frequentemente um espectro de ideias e práticas voltados para a saúde e bem-estar. Esses aspetos sempre proporcionaram uma porta de entrada nos locais por onde passou em virtude da sua relevância no palco da assistência médica (Salguero, 2014, p. 244) De facto se quisermos reduzir a um ponto essencial a doutrina do Buda histórico, esse teria que passar pelo estudo do sofrimento, as suas causas, o fim desse sofrimento, e o caminho para a sua extinção. Uma das formas mais comuns desse sofrimento se manifestar é por meio das doenças que afligem o ser humano e a tradição Budista sempre ofereceu uma visão e práticas para evitar as suas causas e amenizar os seus efeitos. Por essa razão algumas metáforas são frequentemente interpretadas literalmente, como, por exemplo a descrição do Buda como sendo o grande médico e o Dharma identificado como o grande medicamento. (Salgueiro, 2018)

Com o passar do tempo e à medida que se foi desenvolvendo, as instituições monásticas tornaram-se em polos de aprendizagem médica, e vários monges e leigos tornaram-se famosos pelo seu domínio de técnicas rituais e medicinais.

Enquanto o Budismo se espalhou da Índia para outras partes da Eurasia no decorrer do primeiro milénio CE, os seus textos e práticas tornaram-se veículos importantes para a disseminação cultural cruzada de ideias medicas. Em algumas partes do Sudeste e da Ásia Central (como Tailândia, Sri Lanka e Tibete), essa transmissão Budista lançou as bases para os sistemas de medicina tradicional que ainda estão amplamente em prática hoje (Salguero, 2014)

São muitos os textos e escrituras do Canon Budista traduzidos do sanskrito para o Chinês como o Lotus Sutra e o Vimalakīrti Sutra que contém referencias importantes explicando as perspetivas Budistas e filosofia sobre doenças do corpo e da mente. Além desses textos existem comentários de académicos Budistas Chineses que se debruçam sobre tópicos de doença, cura, enfermagem e outros aspetos da medicina.

Desde a introdução do budismo na China no primeiro século CE, que as instituições monásticas e clérigos estiveram intimamente associados às atividades médicas. Sabe-se que muitos dos primeiros missionários Budistas conhecidos na China conheciam várias especialidades médicas.

O Budismo chinês também conhecido como Han ou Chan moldou a cultura chinesa numa ampla variedade de áreas, incluindo arte, política, literatura, filosofia e medicina.

Originário da região do Nepal, foi trazido para a China através das suas regiões ocidentais durante a dinastia Han (206 AC – 220 DC) tendo tingido o seu pico nas dinastias Jin (265-420) e Tang (618-907). Enquanto um sistema religioso e filosófico, tinha uma relação próxima com a medicina tradicional chinesa.

Uma grande quantidade de medicamentos e fórmulas indianas foram introduzidas na China através da Rota da Seda e das rotas marítimas, sendo que grande parte desse intercâmbio farmacológico esteve relacionado com a transmissão intercultural do Budismo.

Ainda mais do que pelos textos médicos oficiais, a compreensão da medicina Budista na China foi afetada por vários manuscritos escondidos e recuperados de Dunhuang e Turfan assim como de outros locais no centro da rota da seda. Entre esses achados estão numerosos escritos sobre farmacologia, dieta, sexologia, feitiços e encantamentos, assim como outras técnicas de cura que vão do sec. V ao início do séc. XI e que exibem uma mistura liberal de elementos médicos clássicos Budistas e Taoistas (Salguero, 2014)

Para manter e expandir a sua doutrina, os monges sempre atraíram mais interessados através do exercício da medicina. A maioria dos monges conhecia bem a medicina e por isso fazia prescrições, aproveitando essa conexão para estabelecer hospitais e promover a estreita relação entre o Budismo e a medicina chinesa assim como o seu desenvolvimento mútuo.

Ao promover a filosofia Budista através da valorização da medicina, foi possível aumentar a integração e a influência entre a medicina Budista e a medicina tradicional Chinesa. Por exemplo, o tratamento da catarata pela medicina tradicional chinesa, chamado jinzhen bazhang shu (remover a catarata com a agulha de ouro), originou-se da antiga medicina indiana e foi encontrado nas traduções Budistas da dinastia Han. (“Chinese Medicine and Confucianism, Taoism and Buddhism,” n.d.).

Além disso, técnicas de massagem na antiga medicina indiana foram trazidas para a China na Dinastia Tang, e tornaram-se parte das técnicas de massagem tradicional chinesa. Sun Simiao, um famoso médico Taoista da Dinastia Tang, registou 18 técnicas de Massagem no seu texto Qianjin Yaofang (Suplemento às Fórmulas de Mil Pontos de Ouro). Esta massagem, que se originou de métodos descritos em textos Budistas, foi altamente reconhecida pelos médicos chineses tradicionais.

Existem milhares de variedades de plantas e animais registados nos clássicos Budistas, incluindo 320 categorias de medicamentos usados frequentemente.
Estes ingredientes de medicina, tais como cravo (dingxiang), borneol (longnao), cardamomo redondo (doukou), chebula (helile), incenso (ruxiang), açafrão (yujin), foram importados da Índia, Sudeste Asiático e regiões ocidentais tendo sido reconhecidos pela medicina tradicional chinesa, e incluídos em formulas Chinesas de Fitoterapia. Sun Simiao colecionou prescrições do conhecido médico Budista jivaka kumarbhaccha e alguns encantamentos Budistas usados no seu livro Qianjin Yifang (Suplemento a Prescrições Valiosas). (“Chinese Medicine and Confucianism, Taoism and Buddhism,” n.d.)

A própria doutrina Budista identifica-se como um exercício de medicina que ajuda os seres humanos a escapar da doença e da morte precoce. Ao defender a proteção de todas as criaturas vivas do sofrimento e manter vivo e atual o ideal de compaixão por todos os seres, o Budismo tem um grande impacto nas regras éticas que devem nortear as decisões de vida e clínicas dos médicos. Estes e outros compassos e guias morais podem ser encontrados no livro de Sun Simiao, Dayi Jingcheng (Virtudes dos Grandes Médicos).

 


Bibliografia:

Salgueiro, C. P. (2018). A Missing Link in the History of Chinese Medicine: Research Note on the Medical Contents of the Taishō Tripiṭaka. East Asian Science, Technology, and Medicine, 0(47), 93–119.

Salguero, C. P. (2014). Buddhism & Medicine in East Asian History. Religion Compass, 8(8), 239–250. https://doi.org/10.1111/rec3.12113

Chinese Medicine and Confucianism, Taoism and Buddhism. (n.d.). Retrieved July 19, 2019, from https://confuciusmag.com/chinese-medicine-confucianismtaoism-buddhism

 

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